terça-feira, janeiro 10, 2006

o fim do mito urbano,
preconceitos, estereótipos & Cª

Ela sonhava ser escritora. Gostava de poder escrever e encontrar nas livrarias onde entra os seus textos reunidos em publicações encadernadas e bonitas, cuidadosamente arrumados ao lado de grandes obras.
Gostava de entrar em casa de quem conhece e encontrar esquecido numa mesa um livro que tivesse nascido de si e estivesse agora nas mãos de outras pessoas.
Gostava...

Alimentou essa ideia quase sem se dar conta. Criou essa fantasia há muitos anos, quando devorava livros pela noite dentro. Quando virava as costas à televisão e ficava a sonhar de olhos abertos a fixar o tecto. Quando, por dormir tão pouco, passava muitas noites em claro. Horas e horas sozinha, acompanhada apenas pelas histórias que inventada ou que descobria nos livros. Foi por esses dias que leu todas as mil e uma histórias contadas em mais de mil noites e percebeu como contar narrativas imaginadas permitiu a Sherazade manipular e cativar o sultão….

Apaixonou-se pelas páginas de um livro, verde e azul, numa noite quente, ao percorrer a feira do livro no jardim Manuel Bívar, pela mão da mãe…ainda nem sabia ler…

Hoje percebeu que não pode ser escritora. Não estão cumpridos os requisitos primários e essenciais que permitam que as suas letras tenham a magia que as faça crescer dentro de páginas brancas. Vive só uma vida normal. E o mito urbano do escritor à margem da sociedade não se cumpre…

Não bebe álcool. Não degusta com prazer e lentidão um copo de vinho tinto, ou doutra bebida qualquer, não vive a sensação doce e lenta de sentir o torpor do álcool a toldar-lhe os sentidos sociais e a deixar que a inspiração surja com força e constância, em cadência, da cabeça para os dedos, dos dedos para o portátil, do portátil para os sentidos, dos sentidos para a alma, contando muitas histórias.

Não fuma. Não pára, enquanto aspira profundamente um cigarro, melhor, uma cigarrilha, com cheiro forte, sofisticado, urbano, quase afectado, ou então um charuto. Um cubano rude, áspero, amargo, grosseiro, queimado num ritual preguiçoso, que permita cogitar numa clareza encoberta uma vida paralela longe dos sítios onde passa as suas horas.

Não consome os dias na cama, perdida em lençóis que acolhem o descanso de uma boémia cultural, literária, intelectual povoada de excessos e excentricidades.
Não vive quando o sol se esconde e a lua ganha terreno. Gosta do sol, da luz, do vigor da manhã, do cheiro do campo, da brisa da praia, de pessoas, de relações próximas.
Inveja com ardor as vidas que conhece nos escritores que admira… que começavam as noites em tertúlias, em trocas de ideias, em conversas acesas e produtivas.
Cobiça a disponibilidade para viagens constantes. Deseja poder entregar-se a dias sem limites, sem deveres sociais, sem expectativas alheias que cerceiem criatividades e encurtem criações.

After all…She is just a girl looking for a regular life.

2 Comments:

Blogger Sónia said...

Ora bem,
eu bebo,fumo, já passei noites e noites de boémia,com artistas e "artistas", onde as ideias discorrem por entre as conversas e o fumo e o álcool. A seguir, muitas manhãs e tardes na cama, a recuperar das mesmas.
E tudo isso não fez de mim uma escritora...

3:22 da tarde  
Blogger jota said...

Este comentário foi removido pelo autor.

3:32 da tarde  

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